Segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Dólar R$ 5,372 ▲ 8,19%Euro R$ 6,000 ▲ 6,87%Ibovespa 176.608 ▼ 13,88%
ARTICULAÇÕES

Cargos, “balcão de negócios”, alianças e rompimentos: os bastidores da política jundiaiense

De investigações e decisões judiciais sobre cargos comissionados a críticos que se tornaram aliados — e aliados que viraram adversários —, episódios das últimas administrações ajudam a reconstruir as mudanças nas relações políticas de Jundiaí.

Jaime Lima
· atualizado há 1 h · Jundiaí
Foto: Reprudução Facebook - Luiz Fernando Machado

Uma reportagem publicada pelo Portal 7 Cidades após as eleições de 2026 trouxe novamente aos bastidores da política de Jundiaí um assunto que atravessa diferentes governos: a relação entre cargos de confiança, apoio político e mudanças de alianças.

Segundo o veículo, servidores municipais relataram receio de uma possível onda de exonerações entre ocupantes de cargos comissionados. A preocupação estaria relacionada, segundo essas fontes, a funcionários que supostamente não teriam se engajado na campanha eleitoral de Ellen Martinelli, candidata a deputada federal e esposa do prefeito Gustavo Martinelli.

A Prefeitura negou a informação.

“Não procede a informação de que esteja sendo planejado corte ou exoneração de servidores comissionados nos termos mencionados na solicitação.”

A administração acrescentou que eventuais alterações nesses cargos fazem parte da rotina e obedecem às necessidades administrativas.

Até o momento, portanto, não há comprovação de exonerações por retaliação eleitoral, e a gestão Martinelli nega que exista um plano com essa finalidade.

O episódio, entretanto, abre uma janela para uma história bem mais antiga.

Ao voltar no tempo, o Diário de Jundiaí encontrou investigações do Ministério Público, decisões judiciais envolvendo estruturas de cargos comissionados, críticas sobre o uso político da administração municipal e uma sequência de personagens que, dependendo do momento, estiveram dentro ou fora dos grupos que governavam a cidade.

Algumas dessas histórias se cruzam.

E uma expressão que hoje chama atenção foi pronunciada pelo próprio Gustavo Martinelli quando ainda era vereador: “balcão de negócios”.

Antes de Luiz Fernando, cargos já estavam na mira do MP

A discussão sobre cargos de livre nomeação não começou na administração Luiz Fernando Machado nem no atual governo.

Em janeiro de 2016, durante a gestão Pedro Bigardi, o Ministério Público ajuizou ação de improbidade contra o então prefeito e o Município de Jundiaí questionando o provimento de cargos em comissão.

Segundo o MP, uma análise do Tribunal de Contas apontou que, dos 423 cargos comissionados existentes no exercício de 2015, 306 possuíam atribuições que não apresentavam características de direção, chefia ou assessoramento e que, no entendimento da Promotoria, deveriam ser exercidas por servidores concursados.

O Ministério Público pediu o afastamento dos ocupantes desses postos e também questionou cargos de Controlador-Geral e Contador-Geral criados durante a administração Bigardi.

Parte da estrutura questionada, entretanto, tinha origem em legislação anterior ao governo Bigardi.

O caso teve decisões judiciais desfavoráveis à administração e desdobramentos posteriores. Por isso, a existência dessas decisões não deve ser confundida com a afirmação de uma condenação definitiva sem que todo o percurso processual seja considerado.

A discussão continuou na gestão Luiz Fernando

A troca de governo não encerrou as controvérsias envolvendo cargos de livre nomeação.

Luiz Fernando Machado assumiu a Prefeitura em janeiro de 2017 e promoveu uma reforma administrativa.

Em 6 de dezembro daquele ano, reportagem do G1 informou que a Justiça havia determinado a suspensão de cargos criados pelo prefeito, em decisão relacionada à nova estrutura administrativa.

Pouco mais de dois meses depois, em 20 de fevereiro de 2018, o TEM Notícias, da TV TEM, informou que o Ministério Público havia aberto 21 inquéritos civis contra a Prefeitura de Jundiaí.

A suspeita investigada envolvia possíveis irregularidades em nomeações para cargos comissionados. Embora os nomeados ocupassem formalmente postos de chefia, direção e assessoramento, o MP pretendia verificar se efetivamente desempenhavam essas funções ou se exerciam atividades que deveriam ser realizadas por servidores de carreira.

Os episódios mostram que a discussão sobre os comissionados atravessou administrações diferentes e chegou tanto ao Ministério Público quanto ao Judiciário.

De crítico dos serviços municipais a integrante do governo

Outro episódio ocorreu justamente na transição entre os governos Bigardi e Luiz Fernando.

Em novembro de 2016, em entrevista ao RS Notícias sobre dependência química e população em situação de rua, Valter Henrique Schüller fez críticas contundentes aos serviços municipais.

“Os serviços que a Prefeitura de Jundiaí oferece hoje são serviços ineficazes.”

Em outro momento, afirmou que “todas as áreas da saúde de Jundiaí estão falidas” e que a área da dependência química não seria diferente.

Meses depois, Luiz Fernando assumiu a Prefeitura.

Em 14 de março de 2017, a Portaria nº 459 nomeou Valter Henrique Schüller para o cargo comissionado de Assessor Municipal II, símbolo DAC-05, na Unidade de Gestão da Casa Civil.

A nomeação de uma pessoa que anteriormente criticou o poder público não comprova troca de apoio, favorecimento ou qualquer irregularidade. O episódio integra esta reportagem pela mudança objetiva de posição: de crítico externo dos serviços municipais, Schüller passou a fazer parte da administração.

“Eu não aguento mais ficar de joelho”

Anos depois, um dos discursos mais contundentes contra a própria administração Luiz Fernando partiria de quem futuramente se tornaria seu vice-prefeito.

Gustavo Martinelli ainda era vereador quando subiu à tribuna e fez o que ele próprio classificou como um desabafo.

“Eu não aguento mais ficar de joelho para um gestor para fazer o mínimo, que é a manutenção da cidade. É vergonhoso.”

Na sequência, Martinelli dirigiu uma acusação ao então gestor de Infraestrutura e Serviços Públicos e dirigente partidário Adilson Rosa:

“O que o Adilson Rosa vem fazendo na plataforma de Serviços Públicos é um balcão de negócios.”

O então vereador foi além. Alegou que integrantes ligados politicamente a Adilson estariam empregados em empresas terceirizadas prestadoras de serviços ao município e acusou o gestor de estar “usando a máquina ao seu favor”.

Martinelli também envolveu o próprio prefeito em sua reclamação:

“Faz três anos que venho solicitando e o prefeito Luiz Fernando Machado sabe muito bem disso.”

As declarações eram acusações feitas por Martinelli. O Diário não encontrou, até o momento, decisão judicial que tenha reconhecido como verdadeiras as irregularidades descritas naquele pronunciamento.

Meses depois, Martinelli virou vice

A relação política mudou rapidamente.

Em setembro de 2020, Luiz Fernando Machado foi confirmado candidato à reeleição. O vice escolhido foi Gustavo Martinelli.

A composição colocou no mesmo grupo eleitoral o prefeito e o vereador que meses antes havia feito duras acusações contra uma área da administração.

Eleitos, Luiz Fernando e Martinelli passaram a governar juntos a partir de 2021. Adilson Rosa, alvo da acusação de “balcão de negócios”, permaneceu na administração.

A aliança não sobreviveria ao processo sucessório.

Em 2024, Luiz Fernando apoiou José Antonio Parimoschi para sucedê-lo. Martinelli seguiu caminho próprio e disputou a Prefeitura contra o candidato apoiado pelo grupo do qual havia participado.

Antigos aliados tornaram-se adversários.

Pacheco havia percorrido o caminho contrário

A história tinha um precedente.

Antes de Martinelli, o vice de Luiz Fernando era o médico Antônio de Pádua Pacheco.

Luiz Fernando e Pacheco foram eleitos juntos em 2016, mas a relação política se deteriorou ao longo do mandato.

Em 2020, o rompimento tornou-se eleitoral. Pacheco disputou a Prefeitura pelo Podemos enquanto ainda ocupava formalmente o cargo de vice-prefeito.

Naquela eleição, portanto, Luiz Fernando buscou a reeleição tendo como novo vice justamente Martinelli, enquanto seu primeiro vice concorria contra ele.

Em quatro anos, um aliado havia se transformado em adversário, enquanto um crítico da administração havia se transformado em companheiro de chapa.

Juninho e o apoio a Martinelli

Outro episódio envolvendo apoio político veio a público durante o segundo mandato de Luiz Fernando.

Juninho Adilson ocupava uma cadeira na Câmara como suplente de Cristiano Lopes, que estava licenciado do Legislativo para integrar o Executivo municipal.

Em agosto de 2023, Cristiano deixou a Prefeitura e reassumiu seu mandato na Câmara. Com o retorno do titular, Juninho deixou a cadeira que ocupava como suplente.

Posteriormente, em manifestação como munícipe na Tribuna Livre da Câmara de Jundiaí, Juninho apresentou sua versão sobre os acontecimentos. Trechos dessa fala foram publicados e republicados posteriormente em suas redes sociais e também utilizados em material eleitoral.

Juninho relatou que, antes de deixar a Câmara, Luiz Fernando o havia chamado para conversar sobre seu posicionamento na eleição municipal seguinte.

“Eu falei abertamente que apoiaria o vice-prefeito Gustavo, até por questão de sucessão natural.”

Segundo Juninho, algum tempo depois recebeu a informação de que Cristiano retornaria à Câmara.

Ao reconstruir o episódio, ele próprio relacionou politicamente os acontecimentos e afirmou ter ficado magoado.

“Assim como eu não poderia falar para o Luiz Fernando: ‘Olha, Luiz, eu vou apoiar o seu candidato para me manter aqui na Câmara’. Não. A gente tem que ter hombridade nessa vida pública.”

Na mesma manifestação, Juninho afirmou que políticos que não agissem de acordo com determinados interesses poderiam ser “boicotados” na Prefeitura e utilizou as expressões “política do coronelismo” e “politicagem barata”.

A relação entre seu posicionamento eleitoral e a volta de Cristiano à Câmara representa a versão e a interpretação política apresentadas pelo próprio Juninho. Os documentos disponíveis comprovam o retorno de Cristiano ao Legislativo e a consequente saída do suplente, mas não comprovam que a decisão tenha ocorrido como retaliação ao apoio declarado a Martinelli.

Em 2024, Juninho voltou às urnas, foi eleito vereador e posteriormente passou a integrar a base do governo Martinelli.

Quézia: da Prefeitura à Câmara, da oposição à base

A trajetória de Quézia de Lucca acrescenta outro movimento à história.

Antes de ser vereadora, ela própria integrou a Prefeitura.

Em entrevista após ser eleita em 2020, Quézia contou que conheceu Luiz Fernando quando trabalhava na Assembleia Legislativa e que, depois de ele chegar à Prefeitura, foi convidada para integrar sua equipe.

Trabalhou ao lado de Adilson Rosa. Segundo a própria Quézia, foram Adilson e Luiz Fernando que posteriormente a convenceram a disputar uma cadeira na Câmara pelo PL.

Ela foi eleita em 2020 e reeleita em 2024.

Com Martinelli na Prefeitura, porém, passou a fazer oposição ao novo governo.

Em novembro de 2025, Quézia publicou um discurso com críticas contundentes ao prefeito e recuperou justamente a antiga relação entre Martinelli e Luiz Fernando.

“O senhor criticava tanto o prefeito, que não dava oportunidade para o senhor, e hoje o senhor está afastando o vice Ricardo Benassi.”

Na legenda da publicação, questionou:

“Se você falava que o Luiz Fernando te dava um remédio amargo, por que agora tá fazendo o mesmo com o Ricardo Benassi?”

Durante o discurso, Quézia afirmou que a “novela está se repetindo”.

Menos de dois meses depois, houve uma nova mudança.

“Seja bem-vinda à nossa base de sustentação”

Em 15 de janeiro de 2026, durante a abertura da 41ª Festa da Uva e 12ª Expo Vinhos, Martinelli cumprimentou publicamente a vereadora:

“Vereadora Quézia de Lucca, obrigado pela presença, seja bem-vinda à nossa base de sustentação da Câmara Municipal.”

O Jornal de Jundiaí registrou que Quézia havia sido oposição declarada ao governo no ano anterior e vinha intensificando encontros com Martinelli e integrantes do secretariado.

Adilson Rosa, presidente municipal do PL — o mesmo personagem acusado por Martinelli anos antes no discurso do “balcão de negócios” — afirmou respeitar a decisão de Quézia, mas declarou que o PL continuava sendo oposição ao governo Martinelli.

Mais uma vez, os personagens permaneceram na política, mas suas posições mudaram.

Cargos, alianças e rompimentos não são a mesma coisa

Os episódios reunidos nesta reportagem possuem naturezas diferentes.

Há casos em que o Ministério Público questionou juridicamente estruturas de cargos comissionados. Há decisões judiciais contrárias a administrações municipais. Há acusações feitas por políticos contra prefeitos e gestores. E há aproximações e rompimentos que pertencem ao campo normal da atividade política.

Por isso, uma coisa não deve ser utilizada como prova automática da outra.

A nomeação de um antigo crítico não comprova que tenha existido troca de apoio. Um vereador mudar de grupo político não demonstra negociação de cargos. Da mesma forma, uma acusação feita na tribuna não se transforma em fato comprovado simplesmente porque foi pronunciada por uma autoridade.

O que a sequência histórica permite documentar são as mudanças de posição.

Martinelli acusou uma área da administração Luiz Fernando de funcionar como “balcão de negócios” e, meses depois, tornou-se vice do prefeito.

Pacheco foi vice e depois concorreu contra Luiz Fernando.

Juninho declarou ter comunicado que apoiaria Martinelli, deixou a Câmara com o retorno do titular e posteriormente acusou o grupo governista de “boicote” e “coronelismo”. Anos depois, tornou-se integrante da base de Martinelli.

Quézia integrou a administração Luiz Fernando, tornou-se vereadora, fez oposição a Martinelli e depois foi recebida pelo próprio prefeito em sua “base de sustentação”.

E a discussão sobre cargos comissionados atravessou diferentes administrações, chegando ao Ministério Público e ao Judiciário.

Agora, em 2026, os cargos de confiança voltam aos bastidores.

Servidores ouvidos pelo Portal 7 Cidades dizem temer exonerações relacionadas ao comportamento durante a campanha eleitoral. A Prefeitura afirma que essa informação “não procede” e que eventuais mudanças obedecerão às necessidades administrativas.

Se a história política recente de Jundiaí revela uma constante, ela está menos na permanência das alianças do que na frequência com que críticos, aliados e adversários trocam de posição ao longo do tempo.

Compartilhe
Envie sua notícia